No lugar do barulho dos automóveis e motocicletas agora ouço com nitidez o canto das maritacas e vejo outros pássaros nos telhados das casas.
Voltei a fazer uma coisa que há mais de 30 anos não fazia: observar o céu, contemplar a beleza infinita das estrelas e a imponência magnífica da lua. Perdemos ao longo do tempo a sensibilidade de apreciação das belezas da natureza.
Estou vivendo momentos sublimes. Todos os dias às doze horas em ponto acontece a linda oração do Ângelus, conduzida pelo nosso pároco, dos alto-falantes da torre da nossa catedral. Acompanhando e rezando de minha janela, fortaleço a espiritualidade.
Da minha janela noto o vazio das ruas e dos espaços urbanos. É a relativização de nossa liberdade imposta por um mau invisível. Isso nos incomoda a ponto de aprofundarmos nossos pensamentos existenciais.
Nos altos e baixos da nossa mente, alternam-se as angústias e a esperança; a preocupação e a fé. Assim os dias estão passando e assim reconhecemos a nossa pequenez e vulnerabilidade.
Nas nossas trincheiras aguardamos a exterminação do inimigo invisível, sabendo que muitos de nossos já tenham sido exterminados, principalmente idosos. Todos nós, soldados em posição de defesa e sempre alertas. Nossa formatação comportamental completamente alterada!
A parte boa é que o meio ambiente está se rejuvenescendo, com menos poluição atmosférica e rios mais límpidos. A natureza, vista de nossa janela, parece respirar mais aliviada. São dias nitidamente formidáveis! Quem sabe melhore o comportamento ambiental da população?
Em breve o mundo vai acelerar de novo. Se este momento de pausa cíclica for mesmo um sinal de que o planeta estava saturado do modo frenético da humanidade, teremos que ser diferentes. Não haverá mais espaço para o egoísmo. A solidariedade prevalecerá para o bem de todos e para a continuidade do mundo!
